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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Grou do inferno ao estorninho, poema de Beckett, um pastiche bíblico. Tradução Adrian'dos Delima.


Grou do inferno ao estorninho                                                  

                                       Samuel Beckett (1906-1989)
     

 Publicado em The European Caravan (1931), antologia que contava também com textos de D.H.Lawrence, James Joyce, T.S.Eliot e Richard Aldington.
Apresentado como “uma antologia do novo espírito na literatura européia:  Parte I, França, Espanha, Inglaterra e Irlanda”.




            Grou do inferno ao estorninho           

  Oolibá encanto dos meus olhos
A Dança Sensual com o anjo
  há uma caverna acima de Zoar
  e um burro da Espanha lá.

  Você não tem que trazer vinho àquela não-relação.

  E ele não vai saber
  quem mudou o seu nome
  quando Javé torceu a junta da sua coxa
  em Peniel em Peniel
  depois que ele enviou os trinta camelos
  mamões da doce morte
  e tantas potrancas
  que eu nem quero tábuas para registrar.

  Senhor Jacó senhor Hipólito-no-
  inferno Jacó
  nós todos sabemos
  como você tentou reunir-se a seu papa.
  Bilah sempre espalha.

  Porque Benoni contornou a segunda safra
  dos meus quadris doloridos
  você nunca o verá
  ruborizando a parede de duas dimensões
  e se você o fizesse
  poderia poupar o frete postal até a Caldeia.

  Mas há um asno sangrento completo
  rabeando com  um robusto impurê de maçãs

  na colina acima de Zoar.

                                       Tradução Adrian'dos Delima



   Notas para desconfundir um pastiche e sua tradução:

*O título alude ao Inferno de Dante (V. 40-51), Paolo e Francesca, de cuja infidelidade os estorninhos e grous são um emblema.
*Oolibá é uma prostituta que aparece em Ezequiel. Comparada a prostituição ao adultério, Ezequiel usa a figura da “puta” para significar que Israel estava “deitando” com “falsos deuses”.
*O asno aparece no início e no final do poema, como figura de sedução, invocando o Livro de Ezequiel: “E enamorou-se dos seus amantes, cuja carne é como a carne de jumentos"(Ezequiel 23: 20). Não sei como é carne de jumento.
*Zoar é a cidade onde Ló se refugiou após a destruição de Sodoma
e Gomorra (Gênesis 19: 17-18); "A Caverna" é onde ele se deitou com as suas
filhas (19, 30). Aquele que "mudou o seu nome é Jacó, que lutou com
um anjo e deslocou sua coxa em Peniel (Gênesis 32: 24-32). Jeová, claro, foi quem mudou o nome de Jacó. Ele trouxe "trinta camelos" para Esaú (Gênesis 32: 15), porque temia o seu irmão.
*Hipólito, filho de Teseu, se recusou a “sujar” a cama de seu pai quando sua madrasta Fedra o desejou.
*Bilah foi concubina de Jacó. Rúben, filho deste, “deitando-se” com ela, levou-a a uma assembléia da família, onde ela foi repudiada.
*Benoni é o filho caçula de Raquel, esposa de Jacó. Significa  "PROVENIENTE DA MINHA DOR". Jacó preferiu chamá-lo de Benjamin.
*As paredes vermelhas fazem alusão a imagens vistas pela citada Oolibá na Caldeia, a qual as adorou e trocou “mensagens” com os “infiéis” caldeus (Ezequiel 23: 20).
*A língua usada no poema é um inglês rural irlandês, de efeito burlesco. Por isso a dúvida com relação ao “impure de pommes”, por exemplo, e o uso de minha (parca) criatividade na tradução.


Agora, leia:

            Hell Crane to Starling

Oholiba charm of my eyes
there is a cave above Tsoar
and a Spanish donkey there.

You needn’t bring wine to that non-relation.

And he won’t know
who changed his name
when Jehovah sprained the seam of his haunch
in Peniel in Peniel
after he’s sent on the thirty camels
suckling for dear death
and so many fillies
that I don’t want log tablets.

Mister Jacobson mister Hippolitus-in-hell Jacobson
we all know
how you tried to rejoin your da.
Bilha always blabs.

Because Benoni skirted aftercrop
of my aching loins
you’ll never see him
reddening the wall in two dimensions
and if you did
you might spare the postage to Chaldea.

But there’s a bloody fine ass
lepping with stout impurée de pommes

in the hill above Tsoar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Samuel Beckett, poema, traduzido por Adrian'dos Delima


1. Dieppe*


encore le dernier reflux
le galet mort
le demi-tour puis les pas
vers les vieilles lumières

2.

je suis ce cours de sable qui glisse
entre le galet et la dune
la pluie d’été pleut sur ma vie
sur moi ma vie qui me fuit me poursuit
et finira le jour de son commencement

cher instant je te vois
dans ce rideau de brume qui recule
où je n’aurai plus à fouler ces longs seuils mouvants
et vivrai le temps d’une porte
qui s’ouvre et se referme

3.

que ferais-je sans ce monde sans visage sans questions
où être ne dure qu’un instant où chaque instant
verse dans le vide dans l’oubli d’avoir été
sans cette onde où à la fin
corps et ombre ensemble s’engloutissent
que ferais-je sans ce silence gouffre des murmures
haletant furieux vers le secours vers l’amour
sans ce ciel qui s’élève
sur la poussière de ses lests

que ferais-je je ferais comme hier comme aujourd’hui
regardant par mon hublot si je ne suis pas seul
à errer et à virer loin de toute vie
dans un espace pantin
sans voix parmi les voix
enfermées avec moi

4.

je voudrais que mon amour meure
qu’il pleuve sur le cimetière
et les ruelles où je vais
pleurant celle qui crut m’aimer

texto original, por Beckett
Samuel Beckett (1906-1989) – Poèmes, suivis de Mirlitonnades – Editions de Minuit

***

1. Dieppe

again the last ebb
the dead shingle
the turning then the steps
toward the lighted town

2.

my way is in the sand flowing
between the shingle and the dune
the summer rain rains on my life
on me my life harrying fleeing
to its beginning to tis end

my peace is there in the receding mist
when I may cease from treading these long shifting thresholds
and live the space of a door
that opens and shuts


3.

what would I do without this world faceless incurious
where to be lasts but an instant where every instant
spills in the void the ignorance of having been
without this wave where in the end
body and shadow together are engulfed
what would I do without this silence where the murmurs die
the pantings the frenzies toward succour towards love
without this sky that soars
above it's ballast dust

what would I do what I did yesterday and the day before
peering out of my deadlight looking for another
wandering like me eddying far from all the living
in a convulsive space
among the voices voiceless
that throng my hiddenness


4.

I would like my love to die
and the rain to be falling on the graveyard
and on me walking the streets
mourning the first and last to love me

versão em inglês do autor, Beckett

Three Occasional PiecesBECKETTSAMUEL. London: Faber & Faber1982 

***

1. Dieppe

de novo o último refluxo
os pedregulhos mortos
a meia-volta e após as escalas
rumo à antiga iluminação

2.

eu sou aquele curso de areia que passa
entre o cascalho e a duna
a chuva do verão chove sobre minha vida
sobre mim minha vida me vai me caça
e termina no dia da sua iniciação

momento querido eu te vejo
nesta cortina de névoa que desmancha
quando eu já não piso nestas longas soleiras movediças
e vivo o tempo de uma porta
que se abre e se fecha

3.

o que eu faria deste mundo sem rosto sem perguntas
onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
flui pelo vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no fim
corpo e sombra juntos são tragados
o que eu faria sem este silêncio garganta dos murmúrios
ofegando furiosos para o salvamento para o amor
sem este céu que se eleva
da poeira do seu lastro

o que eu faria eu faria como ontem e como hoje
cuidando pela minha janela se eu não estou
a passear e a virar pra longe de toda a vida
dentro de um espaço fantoche
sem voz entre as vozes
trancadas aqui comigo


4.

eu quero que o meu amor morra
que ele chova sobre o cemitério
e ruelas em que eu vá
lamentando a que pensou me amar 



Tradução do original francês ao português, cotejando com a versão em inglês, um tanto diferente do texto de partida, 

Adrian'dos Delima 



*Dieppe, comuna francesa à beira mar.