Muita arte na rede Ello. Visualize:

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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Samuel Beckett, poema, traduzido por Adrian'dos Delima


1. Dieppe*


encore le dernier reflux
le galet mort
le demi-tour puis les pas
vers les vieilles lumières

2.

je suis ce cours de sable qui glisse
entre le galet et la dune
la pluie d’été pleut sur ma vie
sur moi ma vie qui me fuit me poursuit
et finira le jour de son commencement

cher instant je te vois
dans ce rideau de brume qui recule
où je n’aurai plus à fouler ces longs seuils mouvants
et vivrai le temps d’une porte
qui s’ouvre et se referme

3.

que ferais-je sans ce monde sans visage sans questions
où être ne dure qu’un instant où chaque instant
verse dans le vide dans l’oubli d’avoir été
sans cette onde où à la fin
corps et ombre ensemble s’engloutissent
que ferais-je sans ce silence gouffre des murmures
haletant furieux vers le secours vers l’amour
sans ce ciel qui s’élève
sur la poussière de ses lests

que ferais-je je ferais comme hier comme aujourd’hui
regardant par mon hublot si je ne suis pas seul
à errer et à virer loin de toute vie
dans un espace pantin
sans voix parmi les voix
enfermées avec moi

4.

je voudrais que mon amour meure
qu’il pleuve sur le cimetière
et les ruelles où je vais
pleurant celle qui crut m’aimer

texto original, por Beckett
Samuel Beckett (1906-1989) – Poèmes, suivis de Mirlitonnades – Editions de Minuit

***

1. Dieppe

again the last ebb
the dead shingle
the turning then the steps
toward the lighted town

2.

my way is in the sand flowing
between the shingle and the dune
the summer rain rains on my life
on me my life harrying fleeing
to its beginning to tis end

my peace is there in the receding mist
when I may cease from treading these long shifting thresholds
and live the space of a door
that opens and shuts


3.

what would I do without this world faceless incurious
where to be lasts but an instant where every instant
spills in the void the ignorance of having been
without this wave where in the end
body and shadow together are engulfed
what would I do without this silence where the murmurs die
the pantings the frenzies toward succour towards love
without this sky that soars
above it's ballast dust

what would I do what I did yesterday and the day before
peering out of my deadlight looking for another
wandering like me eddying far from all the living
in a convulsive space
among the voices voiceless
that throng my hiddenness


4.

I would like my love to die
and the rain to be falling on the graveyard
and on me walking the streets
mourning the first and last to love me

versão em inglês do autor, Beckett

Three Occasional Pieces. BECKETT, SAMUEL. London: Faber & Faber, 1982.  

***

1. Dieppe

de novo o último refluxo
os pedregulhos mortos
a meia-volta e após as escalas
rumo à antiga iluminação

2.

eu sou aquele curso de areia que passa
entre o cascalho e a duna
a chuva do verão chove sobre minha vida
sobre mim minha vida me vai me caça
e termina no dia da sua iniciação

momento querido eu te vejo
nesta cortina de névoa que desmancha
quando eu já não piso nestas longas soleiras movediças
e vivo o tempo de uma porta
que se abre e se fecha

3.

o que eu faria deste mundo sem rosto sem perguntas
onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
flui pelo vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no fim
corpo e sombra juntos são tragados
o que eu faria sem este silêncio garganta dos murmúrios
ofegando furiosos para o salvamento para o amor
sem este céu que se eleva
da poeira do seu lastro

o que eu faria eu faria como ontem e como hoje
cuidando pela minha janela se eu não estou só
a passear e a virar pra longe de toda a vida
dentro de um espaço fantoche
sem voz entre as vozes
trancadas aqui comigo


4.

eu quero que o meu amor morra
que ele chova sobre o cemitério
e ruelas em que eu vá
lamentando a que pensou me amar 



Tradução do original francês ao português, cotejando com a versão em inglês, um tanto diferente do texto de partida, 

Adrian'dos Delima 



*Dieppe, comuna francesa à beira mar.

domingo, 10 de abril de 2011

Blaise Cendrars, em tradução de José Machado Sobrinho


Blaise Cendrars 


ÁGUAS DE PORTUGAL
Sur les Côtes du Portugal

Do Havre optamos por seguir a rota dos antigos navegantes
Espaçosamente o mar de Portugal é coberto de barcos e pesqueiros
É de um azul contínuo e de pelágica transparência
O tempo é claro e quente
Estala o sol de cheio
Inumeráveis algas verdes microscópicas vêm à tona
Produzem alimentos que lhes facilitam uma imediata proliferação
São inexaurível sustento para a legião de infusórios e as delicadas larvas marinhas
Animais de toda espécie
Vermes estrelas e ouriços-do-mar
Crustáceos miúdos
Mundinho efervescente à superfície das águas de escancarada claridade
Gulosos e esganados
Chegam os arenques as sardinhas as cavalas
Atrás deles tainhas atuns bonitos
A que sucedem os cações marsuínos e delfins
O tempo é claro a pesca propícia
Quando o tempo se nubla os pescadores ficam mal-humorados e fazem chegar seu protesto até a tribuna do parlamento


A BORDO DO FORMOSA
À bord du Formose

Céu sinistro estriado de faixas leprosas
Água turva
Estrelas graúdas se desmancham como círios chorosos
A bordo é o seguinte

No castelo de popa quatro russos se alojaram sobre um rolo de cordames e jogam baralho à luz de uma lanterna veneziana
Abaixo judeus em minoria como entre eles na polônia se empinhocam e dão passagem aos espanhóis que tocam bandolins cantam e dançam a jota
Na torre emigrantes portugueses dançam o arromba um negro bate duas compridas castanholas de osso e os pares saem da roda avançam e retornam batendo o calcanhar enquanto uma estridente voz de mulher soa
Os passageiros da primeira classe assistindo a quase tudo desprestigiam esses folguedos
Ao salão um nojo uma alemã sebosa toca um violino e dodói um cu uma francesinha a acompanha ao piano
Ao corredor do convés um russo misterioso oficial da guarda grão-duque incógnito personagem à la Dostoievski que eu apelidei de Dobro-vétcher vai e vem é um menino infeliz esta noite e afeta um nervosismo calçou escarpins envernizados um traje meio basco e um chapelão-coco igual meu pai numa foto em 1895
No fumoir jogam dominó um jovem médico que se assemelha a Jules Romains e rala no alto Sudão um armeiro belga que descerá em Pernambuco um holandês a testa fendida em dois hemisférios por uma cicatriz profunda ele é diretor do Montepio de Santiago do Chile e uma sirigaita de Ménilmontant povinho malandro chegado a trambiques de carro ela me oferece até uma mina de chumbo no Brasil e um poço de petróleo em Baku
Na torre posterior os emigrantes alemães muito asseados e severamente penteados cantam com suas mulheres e filhos graves cânticos e canções sentimentais
No segundo convés discute-se muito e se pragueja em todas as línguas do Leste europeu
Na despensa os bordaleses carteiam a manilha e em seu posto o operador do TSF xinga regado a Santander e a um bom Mogador

GORÉE
Gorée

Um castelo forte mediterrâneo
E atrás uma ilhota plana ruínas portuguesas e bangalôs de um amarelo muito comum nas passarelas de moda de outono
Neste antigo esconderijo de negreiros só moram funcionários coloniais que não se animam a mudar para Dakar onde como em todo lugar aflige a crise dos aluguéis
Visitei as antigas masmorras cravadas na rocha basaltina onde até hoje são vistas correntes e grilhetas que prendiam os escravos
Árias de gramofone precipitavam profundeza abaixo


BUBUS
Les Boubous

Oh estas negras misturadas aos traficantes que a gente encontra perto da aldeia a manusear o percal do tráfico
Mulher nenhuma no mundo tem esta distinção nobreza este andar este dengo este porte esta elegância esta manemolência este requinte esta limpeza este asseio esta saúde este otimismo esta inconsciência esta juventude este capricho
Nem a inglesa aristocrata no Hydepark cedo
Nem a espanhola passeando domingo à tarde
Nem a bela romana do Pincio
Nem as mais singelas camponesas da Hungria ou da Armênia
Nem a sofisticada princesa russa outrora em seu trenó no cais de Neva
Nem a chinesa numa gôndola de flores
Nem as sexy datilógrafas de Nova York
Nem a mais parisiense de todas as parisienses
Permita Deus que pela minha vida afora algumas daquelas imagens entrevistas povoem meu pensamento

Cada mecha de seus cabelos é uma pequena trança de tamanho igual untado penteado e lustroso
No alto da cabeça elas trazem um adorno de couro ou marfim preso por fios de seda multicor ou por coroinhas de pérolas vivas
Este penteado implica horas e horas de trabalho que elas passam a vida a fazer e refazer
Um brinco de moedinhas de ouro fura a cartilagem das orelhas
Algumas têm uns riscos coloridos no rosto sob os olhos no pescoço e todas se maquiam com uma arte fabulosa
Suas mãos são repletas de anéis pulseiras braceletes com todas as unhas pintadas e igualmente a palma da mão
Uma rude armila de prata soa em seus tornozelos e os dedos dos pés também carregam anéis
O calcanhar é pintado de azul
Elas usam bubus de diversos tamanhos vestindo uns por cima dos outros confeccionados de cor e bordados variados elas chegam a estampar um conjunto incrível de bom gosto onde o laranja o azul o ouro o branco predominam
Usam também cintos e grandes figas
Outros diversos turbantes celestes
O seu bem mais precioso são os dentes impecáveis que elas mantém conforme se conservam os metais de um iate de luxo
O seu gingar sestroso confunde assim com um veleiro
Nada porém pode exprimir o requebro e a malícia intencional do flexível molejo dessas cinturas


MICTÓRIO
Mictorio

O mictório é o W.C. da estação
Examino sempre com curiosidade este lugar quando visito um novo país
Estes lugares da estação de Santos são um cubículo onde uma baita gamela que me lembra as grandes talhas nas vinhas de Provença onde uma baita terrina até o pescoço está enterrada no chão
Uma grossa rodela de madeira preta larga e espessa acompanhando as beiras serve de assento
Isso deve ser bem desconfortável e muito baixo
É exatamente o oposto dos tinotes da Bastilha que ficam empoleirados no alto


MÁ FÉ
Mauvaise Foi

Este bendito mordomo a quem apesar de tudo dei uma gorda gorjeta pra não deixar ninguém me amolar
A convite do comandante vem me procurar com seu ar de gato bandido
Me solicita que eu ocupe um lugar de honra à mesa
Fico p. da vida mas não posso recusar
Ao jantar sinto que o comandante é um homem bem simpático
Me instalo entre o adido da embaixada em Haia e um cônsul inglês em Estocolmo
Doutro lado há um sumidade mundial em bacteriologia e sua doce esposa esganada e branquela de olhos mates e redondos
Meus paradoxos antimusicais e teorias culinárias sacodem a mesa numa indignação geral
O adido em Haia precipita seu monóculo na sopa
O cônsul em Estocolmo se desfigura em verde-congestão como um pijama listrado
O sumidade bacteriológica espicha ainda sua pontuda cabeça de furão
Sua esposa matraca e retrai de fora pra dentro tão bem que sua cara acaba por parecer um umbigo de boneco de mola
O comandante pisca maliciosamente


REVELAÇÃO
Incognito Devoilé

Já fazia dias que eu intrigava meus parceiros de mesa
Eles tentavam adivinhar o que eu era
Eu falava de bacteriologia com o sumidade mundial
De mulheres e cabarés com o comandante
Teorias kantianas da paz com o adido em Haia
Negócios de fretes com o cônsul inglês
Paris cinema música banco vitalismo aviação
Esta noite ao cumprimentá-la a mulher do sumidade mundial disse É verdade
O senhor é poeta
Com a breca!
Quem lhe contou foi a mulher do jóquei que viaja de segunda classe
Não lhe pude contrariar pois seu sorriso em forma de umbigo comilão me diverte mais que tudo no mundo
Eu queria muito saber como ela consegue franzir um rosto glutão e bochechudo


AMAS-SECAS E ESPORTES
Nourrices et Sports

Há diversas amas-secas a bordo
Secas e não tão secas assim
Quando se joga malha ao convés
Cada vez que a jovem alemã se debruça ao fundo do corpete saltam dois seiozinhos sapecas
Todos os homens da primeira classe aos matalotes conhecem este jogo e passam a bombordo pelo convés pra apreciar estas duas coisinhas redondas no ninho
Deve-se comentar isto até na despensa
Na ponta de um banco
Num cantinho isolado
Uma criança de peito se dependura e chucha a esguichar o grande seio de uma negra abundante e gomoso como uma penca de bananas


Tradução de José Machaddo Sobrinho


 

Poema de Marco Valério Marcial (Tradução de Jorge de Sena)

VI, 23 - CONTRA LÉSBIA

Que eu esteja sempre de pau feito queres,
Lésbia, mas crê que membro não é dedo.
Co'a mão, co'a voz, tu docemente insistes,
E contra ti teu rosto não perdoa.




Tradução Jorge de Sena 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Poema del brasileño Paulo Leminski en castellano



  SIGNO ASCENDENTE

  Nem todo espelho
  reflita este hieróglifo.
  Nem todo olho
  decifre esse ideograma.

  Se tudo existe
  para acabar num livro,
  se tudo enigma
  a alma de quem ama!

  *** 

  SIGNO ASCENDENTE

  Ni todo espejo
  refleje este jeroglífico.
  Ni todo ojo
  descifre este ideograma.

  ¡Si todo existe
  para acabar en libro,
  si todo enigma
  el alma de quien ama!

Tradução Adriandos Delima


pauloleminskicachorrolouco por Andrey Freitas

terça-feira, 22 de março de 2011

Três. Um poema de Gregory Corso. Tradução Adrian'dos Delima.




Three

 Extraído de "The Happy Birthday of Death,"
(c) 1960, New Directions Publishing Co.

1.

The streetsinger is sick
crouched in the doorway, holding his heart.
One less song in the noisy night.

2.

Outside the wall
the aged gardener plants his shears
A new young man
has come to snip the hedge

3.

Death weeps because Death is human
spending all day in a movie when a child dies.

***


Três

1.
O cantor de rua está mal,
recurvo ao pé da porta, aparando o peito.
Um canto a menos no rumor da noite.

2.
Apartado da muralha
o jardineiro de idade planta suas tesouras
Um novo jovem vem
espicaçar os ramos da cerca

3.
A morte chora porque a morte é gente
perdendo o dia num filme enquanto morre uma criança.                     


Tradução Adrian'dos Delima


+ + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + 

Arte de rua em Barcelona, autor desconhecido. Foto por Euskadi 11,  em
http://www.frontlin.es/

sexta-feira, 11 de março de 2011

Lettre de Blaise Cendrars, traduzido por Diego Grando





Desde que Diego Grando me autorizou a publicar seus poemas e traduções livremente em meu blog, considero-o um colaborador destas páginas.
 
Carta

Você me disse se você me escrever
Não bata tudo à máquina
Acrescente uma linha à mão
Uma palavra um nada oh qualquer bobagem
Sim sim sim sim sim sim sim sim

Minha Remington é boa no entanto
Gosto bastante dela e trabalho bem
Minha escrita é limpa e clara
Vê-se muito bem que eu é que a bati

Há lacunas que sou o único a saber fazer
Veja então o olho que tem a minha página
No entanto para seu agrado eu acrescento à tinta
Duas três palavras
E uma grande mancha de tinta
A fim de que você não possa lê-las


Lettre

Tu m’as dit si tu m’écris
Ne tape pas tout à la machine
Ajoute une ligne de ta main
Un mot un rien oh pas grand chose
Oui oui oui oui oui oui oui oui

Ma Remington est belle pourtant
Je l’aime beaucoup et travaille bien
Mon écriture est nette est claire
On voit très bien que c’est moi qui l’ai tapée

Il y a des blancs que je suis seul à savoir faire
Vois donc l’oeil qu’a ma page
Pourtant pour te faire plaisir j’ajoute à l’encre
Deux trois mots
Et une grosse tache d’encre
Pour que tu ne puisses pas les lire






                Blaise Cendrars, Feuilles de route, 1924.
                Tradução Diego Grando

terça-feira, 1 de março de 2011

Blaise Cendrars, Vida Perigosa

Vida perigosa


Hoje sou quem sabe o mais feliz homem do mundo
Possuo tudo o que eu não desejo
E da única coisa desejável da vida cada volta da hélice me traz próximo
E eu já posso a ter perdido chegando







  
Vie dangereuse

Aujourd'hui je suis peut-être l'homme le plus heureux du monde 
Je possède tout ce que je ne désire pas
Et la seule chose à laquelle je tienne dans la vie chaque tour de l'hélice m'en rapproche
Et j'aurai peut-être tout perdu en arrivant









35 ° 57 'de latitude norte
15 ° 16 'de longitude oeste

  
A isto hoje se chegou
Eu vi o ocorrido desde o início da travessia
O mar estava bonito com uma bruta corcova de fundo que nos fazia balançar
O céu estava encoberto desde a manhã
Isto era quatro horas da tarde
Eu estava em meio ao jogo de dominó
De um golpe eu lancei um grito e corri sobre o convés
É isso é isso
O azul de ultramar
O azul papagaio do céu
A atmosfera amena
Um não sabe como isso se passou e como definir a coisa
Mas tudo aumenta em um grau de tonalidade
Ao entardecer eu tive a prova dos nove
O céu no momento era limpo
O sol poente como uma roda
A lua cheia como outra roda
E as estrelas maiores maiores
  
Este ponto está localizado entre a Ilha da Madeira a estibordo e Casablanca a bombordo
Já

 



35° 57' latitude Nord
15° 16' longitude ouest


C'est aujourd'hui que c'est arrivé
Je guettais l'événement depuis le début de la traversée
La mer était belle avec une grosse boule de fond qui nous faisait rouler
Le ciel était couvert depuis le matin
Il était 4 heures de l'après-midi
J'étais en train de jouer aux dominos
Tout à coup je poussai un cri et courus sur le pont
C'est ça c'est ça
Le bleu d'outremer
Le bleu perroquet du ciel
Atmosphère chaude
On ne sait pas comment cela s'est passé et comment définir la chose
Mais tout monte d'un degré de tonalité
Le soir j'en avais la preuve par quatre
Le ciel était maintenant pur
Le soleil couchant comme une roue
La pleine lune comme une autre roue
Et les étoiles plus grandes plus grandes


Ce point se trouve entre Madère à tribord et Casablanca à bâbord
Déjà

Madeira e azul-papagaio


Traduções Adrian'dos Delima



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Férias em Florianópolis

Como resultado das minhas férias em Floripa, fevereiro de 2011, brotaram poemas de dupla autoria, meus e de minha esposa, Janaína Bady, uma pequena série de haikais (e mais dois, avulsos), todos com título. Alguns exercícios de percepção sensorial, principalmente com a luminosidade, sem iluminação propriamente dita, a não ser uma contemplação do belo à moda de Buson.



O TUBO

Peixe-espada,
Enrolada na onda,
A luz do luar.

O PEIXE-ESPADA

Delgado e prata,
Sob a lua
A onda suba.

A PEIXARIA

Num pacote de jornal,
O peixe,
Pele impressa.

AS MANCHAS DA PAREDE

Um tubo sugando os peixinhos,
Onda de reflexos em cacos.

***

LONGE

Duas faixas de reflexo
Iluminam
A inércia dos barquinhos.

***

AVE AMBIVALENTE

Uma bóia ondula e não levanta vôo
Essa entre os barcos sim
Faz as duas coisas



VVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVV

sábado, 29 de janeiro de 2011

Passa um trabalhador e Silêncio, dois poemas verbais de Joan Brossa.

  PASSA UN OBRER

  Passa un obrer amb el paquet del dinar.

  Hi ha un pobre assegut a terra.

  Dos industrials prenen cafè
  i reflexionen sobre el comerç.

  L'Estat és una gran paraula.


         ***

PASSA UM OPERÁRIO

Passa um operário com o pacote do almoço.

Há um pobre assentado no chão.

Dois industriais pedem café
e refletem sobre comércio.

O Estado é uma grande palavra.


>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

  SILENCI

  Escolteu aquest silenci

 ***

 Silêncio

 Escutai este silêncio


Traduções Adrian'dos Delima

GIUSEPPE UNGARETTI - Sereno, traduzido ao português.

Sereno
 
Dopo tanta
nebbia
a una
a una
si svelano
le stelle


Respiro
il fresco
che mi lascia
il colore del cielo


Mi riconosco
immagine
passeggera


Presa in un giro
immortale. 


Giuseppe Ungaretti

...

Sereno

Após tanta
névoa
uma
a uma
se revelam
estrelas

Respiro o
frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Tomada em viagem
imortal.

Tradução Adrian'dos Delima

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

I exceed my limits, poema de Jerome Rothenberg traduzido ao português.


                   

    





                                                                                                               

                                                                         I EXCEED MY  LIMITS
                                                                                                                         

by Jerome Rothenberg

I have tried an altenstil
& dropped it.
My skin is blazing, 
blazing too
the way I see your faces 
in the glass.
With the circle of the sun
behind me
I exceed my limits.
My garments are                                                       
from the beginning
& my dwelling place
is in my self(J. Dee)
It makes me want
to fly the stars
below the paradise of poets
lost in space.
I am the father of a lie
unspoken.
I can make my mind
go blank
then paw at you
my fingers in
your mouth.
I think of God
when fucking.
Is it wrong to pray
without a hat
to reject the call
to grace? I long to flatter
presidents & kings.
I long for manna.
I will be the first
to sail for home
the last to flaunt
my longings.
I will undo my garments
& stand before you
naked. In winter
I will curse their god
& die.             
                 
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Eu excedo os meus limites                                                                                                                                        



Eu tentei um altenstil
& o deitei.
Meu couro está radioso,
radioso também
o modo como vejo teu rosto
no vidro.
Com a circunferência do sol
atrás de mim
eu excedo os meus limites.
Meus itens de vestuário
são  
lá dos primórdios
& meu local de residência
está no meu eu (J. Dee)
Isso me faz querer
tremular as estrelas
sob o paraíso dos poetas
perdido no espaço.
Eu sou o pai de uma mentira
não dita.
Eu posso deixar minha mente
em branco
& então me agarrar em ti
com os dedos em
tua boca.
Eu medito em Deus
quando fodo.
É errado se rezar
sem um chapéu
para rejeitar o chamamento
à graça? Eu espero agradar
presidentes & reis.
Eu espero por maná.
Eu vou ser o primeiro
a velejar para casa
o último a içar
minhas ânsias.
Vou desatar minha roupagem
& estacar ante vós
despido. No inverno
eu vou maldizer o deus deles
& expirar.


Tradução Adrian'dos Delima

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Nota: algumas alterações na tradução inicial foram feitas a partir de conversa com o autor, Jerome Rothenberg.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Do Inimigo Natural, velho poema de Adrian'dos Delima.

Numa época de tantas águas trágicas, um poema que cai bem (e se digere mal).






DO INIMIGO NATURAL



prainha
de pescadores
virada do avesso
  por uma onda

hosana
hosana sempre
por esta catástrofe
tão à-toa

casinhas
                                                                de crustáceos
à beira-mar

tragadas
            no embalo
de krakatoa                                                  




  1990

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Poema de Roland Dubillard, comediante e escritor francês, vertido por Diego Grando


poema número 88 de la boîte à outils.



RECUSA
A água não é um pé, não.
A garrafa não é um calçado, não.
O funil ajuda a água a se enfiar na garrafa, certamente.
Mas a calçadeira não é um tipo de funil.
Não. Não. Você não nos fará
Pensar dessa maneira.



//////////////////////////////



REFUS
L’eau n’est pas un pied, non.
La bouteille n’est pas une chaussure, non.
L’entonnoir aide l’eau à se glisser dans la bouteille, certes.
Mais la corne à chaussure n’est pas un genre d’entonnoir.
Non. Non. Vous ne nous ferez pas
Penser de cette façon-là.



Roland Dubillard, comediante e escritor francês


Tradução Diego Grando, publicada no blogue Ativastentativas





Tinha uma pedra que era da calçada
Botaram essa pedra no mei do meu caminho

Tinha uma pedra no mei do meu caminho

As pedras do caminho deixe lá pra trás
No amor e na eleição diz que tudo se faz
Caminhante não há caminho
Caminho se abre ao tropeçar

Adrian'dos Delima, claro


três poemas de Giuseppe Ungaretti, com tradução de Jorge de Sena


      
SONO UNA CREATURA

Come questa pietra
del S.Michele
così freda
così dura
così prosciugata
così refrattaria
così totalmente
disanimata
Come questa pietra
è il mio pianto
che no si vede

La morte
si sconta
vivendo.


          Sou uma criatura

          Como esta pedra
          do S. Miguel
          assim fria
          assim dura
          assim enxuta
          assim refratária
          assim totalmente
          desanimada
          como esta pedra
          é o meu pranto
          que não se vê

         A morte 
         desconta-se
         vivendo.

Tradução Jorge de Sena


***
                                                    Retrato de Ungaretti por Serena Maffia


    IN MEMORIA.
    Locvizza il 30 settembre 1916.                        

Si chiamava
Moammed Sceab
Discendente
di emiri di nomadi suicida
perchè non aveva più
Patria

Amò la Francia
e mutò nome

Fu Marcel
ma non era Francese e non sapeva più
vivere nella tenda dei suoi
dove si ascolta la cantilena
del Corano
gustando un caffè

E non sapeva
sciogliere
il canto del suo abbandono

L’ho accompagnato
insieme alla padrona dell’albergo dove abitavamo
a Parigi
dal numero 5 della rue des Carmes
appassito vicolo in discesa

Riposa
nel camposanto d’Ivry
sobborgo che pare
sempre
in una giornata
di una
decomposta fiera

E forse io solo
so ancora
che visse

À MEMÓRIA DE  

Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café

E não sabia soltar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida

Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.

E talvez eu só
ainda saiba
que viveu. 


Tradução Jorge de Sena


***

 VEGLIA
( cima 4 del 23 dicembre 1915 )

 Un’intera nottata
 buttato vicino
 ad un compagno
 massacrato
 con la sua bocca
 digrignata
 volta al plenilunio
 con la gestione
 delle sue mani
 penetra
 nel mio silenzio
 ho scritto
 lettere piene d’amore


 Non sono mai stato
 tanto
 attaccato alla vita
          


VIGÍLIA                                                                                       

     Uma noite inteira
     atirado ao lado
     de um camarada
     massacrado
     com a sua boca
     desgrenhada
     voltada à lua cheia
     com a congestão
     das suas mãos
     penetrada
     no meu silêncio
     escrevi 
     cartas plenas de amor
    
     Nunca me senti
     tão 
     preso à vida.

Tradução Jorge de Sena