Muita arte na rede Ello. Visualize:

Muita arte na rede Ello:

terça-feira, 12 de julho de 2011

Harry Crosby, de "CHARIOT OF THE SUN", 1927. Tradução quase óbvia e outra.Adrian'dos Delima.


POEM FOR THE FEET OF POLIA                                           

they have walked through the gateways
of my eyes
they have climbed the mountains
of my body
they have marched across the desert
of my heart
they have forded the rivers
of my mind
they have penetrated into the dark forest
of my soul

if I were a cannibal I might devour them
if I were Pilate I might crucify them
if I were a sorcerer I might make them vanish away
if I were Neptune I might drown them
if I were a robber I might steal them

but I am a bridge to the sun
bridge leading away from a world of pain
bridge leading away from a night of sin
bridge over the abyss of doubt
bridge for the feet of Polia to the Sun  


                        ***                          


POEMA PARA OS PÉS DE POLIA

  eles andaram pelos portões
  dos meus olhos
  eles subiram as montanhas
  do meu corpo
  eles marcharam através do deserto
  do meu coração
  eles vadearam o rio
  da minha mente
  eles penetraram na floresta escura
  da minha alma

  se eu fosse um canibal eu poderia devorá-los
  se eu fosse Pilatos eu poderia crucificá-los
  se eu fosse um feiticeiro eu poderia fazê-los desaparecer
  se eu fosse Netuno eu poderia afogá-los
  se eu fosse um ladrão eu poderia roubá-los

  mas eu sou uma ponte para o sol
  ponte conduzindo pra fora de um mundo de penas
  ponte  conduzindo pra fora de uma noite no mal
  ponte sobre o abismo da dúvida
  ponte para os pés de Polia  para o Sol


Tradução Adrian'dos Delima 


Mais um poema de "Transit of Venus", de Harry Crosby.

THE GIRL WITH THE THORN IN HIS SIDE

    

 

      THORN IN THE FLESH

 

    Thorn beneath the milk-white
    Crowned with
    In the flesh

    Thorns beneath the
    Rose without
    On the ground
    On the stalk

    Thousands at her bidding speed
    Countless mourn
    Die without

    Sunbeam in a winter's day
    True as the dial to
    True as the dial to
    True as the dial
    To you.

//////////////\\\\\\\\\\\\\\\\\/\\\\\\\/\/\/\/\/\///////////////////



ESPINHO NA CARNE

Espinho sob o branco-leite

Coroado em
Entre a carne

Espinhos sob a
Rosa em fora
No solo
No talo

Milhares na rapidez de oferta dela
Incontável chorar
Destino fora

Raio de sol pra um dia de inverno
Vero como o dial vem
Vero como o dial vem
Vero como o dial 
Em você.


                                                                Tradução Adrian'dos Delima 


Na tradução, alguns recursos sonoros e semânticos do texto de partida foram substituídos por outros, relativamente equivalentes, embora nem sempre em posições equivalentes na estrutura dos versos, para recriar razoavelmente os efeitos sonoros e linguísticos propostos no texto original. Linguisticamente, observe-se, o autor operou, em certo momento, como e.e. cummings ao atomizar as palavras em novas unidades semãnticas distintas (whit+in).  Sonoramente, o autor explora como rima semelhanças como “without”, “ground” e “stlak” e “day” e “you”. Explora também a semelhança mais visual que sonora entre “white” e “with”. Para efeitos semelhantes aos do original, uso a hiper-literalidade e aliterações.

domingo, 10 de julho de 2011

MAGIC FORMULA, poema de "Transit of Venus", de Harry Crosby, 1928 (tradução ao português de Adriandos Delima)

illustration by Harry Crosby
in Red Skeletons
MAGIC FORMULA                                                                    

What heavens opened and blazed,
What sisters virtuous,
What arrows sprang to mark,
The trees so terrible and dark,
What years, what hopes,
What lions all amazed,
What fears disguised,
(These antelopes with frightened eyes)
What things are these?

These are the things that all day long
On things made new
After the sunset has merged with the dawn
I bring to you

These are the things that grow less and less
As sleep devours our nakedness.



*********************************** 


 
  FÓRMULA MÁGICA

  Quais céus abertos e inflamados,
  Quais irmãs virtuosas,
  Quais flechas surgiram como desígnio,
  As árvores tão sombrias e terríveis,
  Quais anos, quais esperanças,
  Quais leões bem maravilhados,
  Quais medos disfarçados,
  (Estes antílopes com os olhos transidos)
  Quais coisas são estas?

  Estas são as coisas que durante todo o dia
  Sobre coisas feitas novas
  Depois que o ocaso se fundiu com a alvorada
  Eu trago a vós

  Estas são as coisas que germinam menos cada vez
  Como o sono devora nossa nudez.


 Tradução Adriandos Delima

Requisites, poema de "Transit of Venus", de Harry Crosby, 1928 (tradução ao português de Adrian'dos Delima)

REQUISITES

Of the moon,
Of the wind,
Of the frozen sea,
As ice, be thou,
As evening dew,
As the icicle,
As unsunned snow,
As orchids I shall bring to you-
To me if you are not these
What care I how you be
I shall know tranquillity.







   ****************************              



               REQUISITOS

    Da lua,
    Do vento,
    Do mar congelado,
    Qual gelo, sê tu,
    Qual orvalho do crepúsculo,
   
Qual o sincelo,
   
Qual neve sem um sol,
   
Qual orquídeas que a vós trazer vou -
    Ou a mim, se não sois estes
    Que me importa como serdes
    Eu devo saber placidez.


                                                            Tradução Adrian'dos Delima 


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dos "Poemas de Amor de Marichiko", de Kenneth Rexroth

               VII. Making love with you...                                 

              Making love with you
             Is like drinking sea water.
           The more I drink
         The thirstier I become,
       Until nothing can slake my thirst
     But to drink the entire sea.



...................................................


  VII

 Amar com você
 É como beber água do mar.
 Mais bebo
 Mais fico sedenta,
 Até água alguma saciar minha sede,
 Somente beber o mar inteiro.  





































     Quem é? Sou eu.
    Eu quem? Eu sou eu, você, você.
   Mas você rouba meu pronome,
  E somos nós.




Traduções Adriandos Delima 

No livro de 1978, escrito em duas versões, em japonês e em inglês, Rexroth apresenta Marichiko assim "Marichiko is the pen name of a contemporary young woman who lives near the temple of Marishi-ben in Kyoto." Ela é, no entanto, um personagem criado pelo poeta norte-americano, que redigiu a versão dos poemas em duas línguas.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

nem termina o nascimento, poema de Henri Meschonnic


     
                         
                  on n’a pas fini de naître
                  on crie en sursis
                  les lèvres suspendues
                  à des mots qui ne sont pas dits
 

 ***

  
      nem se finda o nascimento
      já se grita por sursis
      os lábios suspendidos
      pelas palavras que não são ditas


Tradução Adrian'dos Delima


 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

cummings, novamente, duas vezes, perpetuando a tradição do "tradutor, traidor".


     (fea
     therr
     ain

     :dreamin
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     ver forest &

     wh
     o could
     be

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     e.e. cummings

     Traduções Adrian'dos Delima

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Grou do inferno ao estorninho, poema de Beckett, um pastiche bíblico. Tradução Adrian'dos Delima.


Grou do inferno ao estorninho                                                  

                                       Samuel Beckett (1906-1989)
     

 Publicado em The European Caravan (1931), antologia que contava também com textos de D.H.Lawrence, James Joyce, T.S.Eliot e Richard Aldington.
Apresentado como “uma antologia do novo espírito na literatura européia:  Parte I, França, Espanha, Inglaterra e Irlanda”.




            Grou do inferno ao estorninho           

  Oolibá encanto dos meus olhos
A Dança Sensual com o anjo
  há uma caverna acima de Zoar
  e um burro da Espanha lá.

  Você não tem que trazer vinho àquela não-relação.

  E ele não vai saber
  quem mudou o seu nome
  quando Javé torceu a junta da sua coxa
  em Peniel em Peniel
  depois que ele enviou os trinta camelos
  mamões da doce morte
  e tantas potrancas
  que eu nem quero tábuas para registrar.

  Senhor Jacó senhor Hipólito-no-
  inferno Jacó
  nós todos sabemos
  como você tentou reunir-se a seu papa.
  Bilah sempre espalha.

  Porque Benoni contornou a segunda safra
  dos meus quadris doloridos
  você nunca o verá
  ruborizando a parede de duas dimensões
  e se você o fizesse
  poderia poupar o frete postal até a Caldeia.

  Mas há um asno sangrento completo
  rabeando com  um robusto impurê de maçãs

  na colina acima de Zoar.

                                       Tradução Adrian'dos Delima



   Notas para desconfundir um pastiche e sua tradução:

*O título alude ao Inferno de Dante (V. 40-51), Paolo e Francesca, de cuja infidelidade os estorninhos e grous são um emblema.
*Oolibá é uma prostituta que aparece em Ezequiel. Comparada a prostituição ao adultério, Ezequiel usa a figura da “puta” para significar que Israel estava “deitando” com “falsos deuses”.
*O asno aparece no início e no final do poema, como figura de sedução, invocando o Livro de Ezequiel: “E enamorou-se dos seus amantes, cuja carne é como a carne de jumentos"(Ezequiel 23: 20). Não sei como é carne de jumento.
*Zoar é a cidade onde Ló se refugiou após a destruição de Sodoma
e Gomorra (Gênesis 19: 17-18); "A Caverna" é onde ele se deitou com as suas
filhas (19, 30). Aquele que "mudou o seu nome é Jacó, que lutou com
um anjo e deslocou sua coxa em Peniel (Gênesis 32: 24-32). Jeová, claro, foi quem mudou o nome de Jacó. Ele trouxe "trinta camelos" para Esaú (Gênesis 32: 15), porque temia o seu irmão.
*Hipólito, filho de Teseu, se recusou a “sujar” a cama de seu pai quando sua madrasta Fedra o desejou.
*Bilah foi concubina de Jacó. Rúben, filho deste, “deitando-se” com ela, levou-a a uma assembléia da família, onde ela foi repudiada.
*Benoni é o filho caçula de Raquel, esposa de Jacó. Significa  "PROVENIENTE DA MINHA DOR". Jacó preferiu chamá-lo de Benjamin.
*As paredes vermelhas fazem alusão a imagens vistas pela citada Oolibá na Caldeia, a qual as adorou e trocou “mensagens” com os “infiéis” caldeus (Ezequiel 23: 20).
*A língua usada no poema é um inglês rural irlandês, de efeito burlesco. Por isso a dúvida com relação ao “impure de pommes”, por exemplo, e o uso de minha (parca) criatividade na tradução.


Agora, leia:

            Hell Crane to Starling

Oholiba charm of my eyes
there is a cave above Tsoar
and a Spanish donkey there.

You needn’t bring wine to that non-relation.

And he won’t know
who changed his name
when Jehovah sprained the seam of his haunch
in Peniel in Peniel
after he’s sent on the thirty camels
suckling for dear death
and so many fillies
that I don’t want log tablets.

Mister Jacobson mister Hippolitus-in-hell Jacobson
we all know
how you tried to rejoin your da.
Bilha always blabs.

Because Benoni skirted aftercrop
of my aching loins
you’ll never see him
reddening the wall in two dimensions
and if you did
you might spare the postage to Chaldea.

But there’s a bloody fine ass
lepping with stout impurée de pommes

in the hill above Tsoar.

domingo, 8 de maio de 2011

POEMA DE QUANDO ACHEI UNS ACHADOS DO POETA WILMAR SILVA

POEMA DE QUANDO ACHEI UNS ACHADOS DO POETA WILMAR SILVA

b-bemem loucloouco
mas o dizer louco vá-te à merda
é pouco é nada e hoje
não é poeta quem é louco
é sair da cama abrir a janela abrir os olhos
nesta ordem
eu fui ter com a vida da rua
e de certa forma ela estava morta
pois uma floresta que de nenhuma forma  evolui
em círculações eu a patinava
e não lhe dei nenhum neologismo
e elogios menos


08 05 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Samuel Beckett, poema, traduzido por Adrian'dos Delima


1. Dieppe*


encore le dernier reflux
le galet mort
le demi-tour puis les pas
vers les vieilles lumières

2.

je suis ce cours de sable qui glisse
entre le galet et la dune
la pluie d’été pleut sur ma vie
sur moi ma vie qui me fuit me poursuit
et finira le jour de son commencement

cher instant je te vois
dans ce rideau de brume qui recule
où je n’aurai plus à fouler ces longs seuils mouvants
et vivrai le temps d’une porte
qui s’ouvre et se referme

3.

que ferais-je sans ce monde sans visage sans questions
où être ne dure qu’un instant où chaque instant
verse dans le vide dans l’oubli d’avoir été
sans cette onde où à la fin
corps et ombre ensemble s’engloutissent
que ferais-je sans ce silence gouffre des murmures
haletant furieux vers le secours vers l’amour
sans ce ciel qui s’élève
sur la poussière de ses lests

que ferais-je je ferais comme hier comme aujourd’hui
regardant par mon hublot si je ne suis pas seul
à errer et à virer loin de toute vie
dans un espace pantin
sans voix parmi les voix
enfermées avec moi

4.

je voudrais que mon amour meure
qu’il pleuve sur le cimetière
et les ruelles où je vais
pleurant celle qui crut m’aimer

texto original, por Beckett
Samuel Beckett (1906-1989) – Poèmes, suivis de Mirlitonnades – Editions de Minuit

***

1. Dieppe

again the last ebb
the dead shingle
the turning then the steps
toward the lighted town

2.

my way is in the sand flowing
between the shingle and the dune
the summer rain rains on my life
on me my life harrying fleeing
to its beginning to tis end

my peace is there in the receding mist
when I may cease from treading these long shifting thresholds
and live the space of a door
that opens and shuts


3.

what would I do without this world faceless incurious
where to be lasts but an instant where every instant
spills in the void the ignorance of having been
without this wave where in the end
body and shadow together are engulfed
what would I do without this silence where the murmurs die
the pantings the frenzies toward succour towards love
without this sky that soars
above it's ballast dust

what would I do what I did yesterday and the day before
peering out of my deadlight looking for another
wandering like me eddying far from all the living
in a convulsive space
among the voices voiceless
that throng my hiddenness


4.

I would like my love to die
and the rain to be falling on the graveyard
and on me walking the streets
mourning the first and last to love me

versão em inglês do autor, Beckett

Three Occasional PiecesBECKETTSAMUEL. London: Faber & Faber1982 

***

1. Dieppe

de novo o último refluxo
os pedregulhos mortos
a meia-volta e após as escalas
rumo à antiga iluminação

2.

eu sou aquele curso de areia que passa
entre o cascalho e a duna
a chuva do verão chove sobre minha vida
sobre mim minha vida me vai me caça
e termina no dia da sua iniciação

momento querido eu te vejo
nesta cortina de névoa que desmancha
quando eu já não piso nestas longas soleiras movediças
e vivo o tempo de uma porta
que se abre e se fecha

3.

o que eu faria deste mundo sem rosto sem perguntas
onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
flui pelo vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no fim
corpo e sombra juntos são tragados
o que eu faria sem este silêncio garganta dos murmúrios
ofegando furiosos para o salvamento para o amor
sem este céu que se eleva
da poeira do seu lastro

o que eu faria eu faria como ontem e como hoje
cuidando pela minha janela se eu não estou
a passear e a virar pra longe de toda a vida
dentro de um espaço fantoche
sem voz entre as vozes
trancadas aqui comigo


4.

eu quero que o meu amor morra
que ele chova sobre o cemitério
e ruelas em que eu vá
lamentando a que pensou me amar 



Tradução do original francês ao português, cotejando com a versão em inglês, um tanto diferente do texto de partida, 

Adrian'dos Delima 



*Dieppe, comuna francesa à beira mar.

domingo, 10 de abril de 2011

Blaise Cendrars, em tradução de José Machado Sobrinho


Blaise Cendrars 


ÁGUAS DE PORTUGAL
Sur les Côtes du Portugal

Do Havre optamos por seguir a rota dos antigos navegantes
Espaçosamente o mar de Portugal é coberto de barcos e pesqueiros
É de um azul contínuo e de pelágica transparência
O tempo é claro e quente
Estala o sol de cheio
Inumeráveis algas verdes microscópicas vêm à tona
Produzem alimentos que lhes facilitam uma imediata proliferação
São inexaurível sustento para a legião de infusórios e as delicadas larvas marinhas
Animais de toda espécie
Vermes estrelas e ouriços-do-mar
Crustáceos miúdos
Mundinho efervescente à superfície das águas de escancarada claridade
Gulosos e esganados
Chegam os arenques as sardinhas as cavalas
Atrás deles tainhas atuns bonitos
A que sucedem os cações marsuínos e delfins
O tempo é claro a pesca propícia
Quando o tempo se nubla os pescadores ficam mal-humorados e fazem chegar seu protesto até a tribuna do parlamento


A BORDO DO FORMOSA
À bord du Formose

Céu sinistro estriado de faixas leprosas
Água turva
Estrelas graúdas se desmancham como círios chorosos
A bordo é o seguinte

No castelo de popa quatro russos se alojaram sobre um rolo de cordames e jogam baralho à luz de uma lanterna veneziana
Abaixo judeus em minoria como entre eles na polônia se empinhocam e dão passagem aos espanhóis que tocam bandolins cantam e dançam a jota
Na torre emigrantes portugueses dançam o arromba um negro bate duas compridas castanholas de osso e os pares saem da roda avançam e retornam batendo o calcanhar enquanto uma estridente voz de mulher soa
Os passageiros da primeira classe assistindo a quase tudo desprestigiam esses folguedos
Ao salão um nojo uma alemã sebosa toca um violino e dodói um cu uma francesinha a acompanha ao piano
Ao corredor do convés um russo misterioso oficial da guarda grão-duque incógnito personagem à la Dostoievski que eu apelidei de Dobro-vétcher vai e vem é um menino infeliz esta noite e afeta um nervosismo calçou escarpins envernizados um traje meio basco e um chapelão-coco igual meu pai numa foto em 1895
No fumoir jogam dominó um jovem médico que se assemelha a Jules Romains e rala no alto Sudão um armeiro belga que descerá em Pernambuco um holandês a testa fendida em dois hemisférios por uma cicatriz profunda ele é diretor do Montepio de Santiago do Chile e uma sirigaita de Ménilmontant povinho malandro chegado a trambiques de carro ela me oferece até uma mina de chumbo no Brasil e um poço de petróleo em Baku
Na torre posterior os emigrantes alemães muito asseados e severamente penteados cantam com suas mulheres e filhos graves cânticos e canções sentimentais
No segundo convés discute-se muito e se pragueja em todas as línguas do Leste europeu
Na despensa os bordaleses carteiam a manilha e em seu posto o operador do TSF xinga regado a Santander e a um bom Mogador

GORÉE
Gorée

Um castelo forte mediterrâneo
E atrás uma ilhota plana ruínas portuguesas e bangalôs de um amarelo muito comum nas passarelas de moda de outono
Neste antigo esconderijo de negreiros só moram funcionários coloniais que não se animam a mudar para Dakar onde como em todo lugar aflige a crise dos aluguéis
Visitei as antigas masmorras cravadas na rocha basaltina onde até hoje são vistas correntes e grilhetas que prendiam os escravos
Árias de gramofone precipitavam profundeza abaixo


BUBUS
Les Boubous

Oh estas negras misturadas aos traficantes que a gente encontra perto da aldeia a manusear o percal do tráfico
Mulher nenhuma no mundo tem esta distinção nobreza este andar este dengo este porte esta elegância esta manemolência este requinte esta limpeza este asseio esta saúde este otimismo esta inconsciência esta juventude este capricho
Nem a inglesa aristocrata no Hydepark cedo
Nem a espanhola passeando domingo à tarde
Nem a bela romana do Pincio
Nem as mais singelas camponesas da Hungria ou da Armênia
Nem a sofisticada princesa russa outrora em seu trenó no cais de Neva
Nem a chinesa numa gôndola de flores
Nem as sexy datilógrafas de Nova York
Nem a mais parisiense de todas as parisienses
Permita Deus que pela minha vida afora algumas daquelas imagens entrevistas povoem meu pensamento

Cada mecha de seus cabelos é uma pequena trança de tamanho igual untado penteado e lustroso
No alto da cabeça elas trazem um adorno de couro ou marfim preso por fios de seda multicor ou por coroinhas de pérolas vivas
Este penteado implica horas e horas de trabalho que elas passam a vida a fazer e refazer
Um brinco de moedinhas de ouro fura a cartilagem das orelhas
Algumas têm uns riscos coloridos no rosto sob os olhos no pescoço e todas se maquiam com uma arte fabulosa
Suas mãos são repletas de anéis pulseiras braceletes com todas as unhas pintadas e igualmente a palma da mão
Uma rude armila de prata soa em seus tornozelos e os dedos dos pés também carregam anéis
O calcanhar é pintado de azul
Elas usam bubus de diversos tamanhos vestindo uns por cima dos outros confeccionados de cor e bordados variados elas chegam a estampar um conjunto incrível de bom gosto onde o laranja o azul o ouro o branco predominam
Usam também cintos e grandes figas
Outros diversos turbantes celestes
O seu bem mais precioso são os dentes impecáveis que elas mantém conforme se conservam os metais de um iate de luxo
O seu gingar sestroso confunde assim com um veleiro
Nada porém pode exprimir o requebro e a malícia intencional do flexível molejo dessas cinturas


MICTÓRIO
Mictorio

O mictório é o W.C. da estação
Examino sempre com curiosidade este lugar quando visito um novo país
Estes lugares da estação de Santos são um cubículo onde uma baita gamela que me lembra as grandes talhas nas vinhas de Provença onde uma baita terrina até o pescoço está enterrada no chão
Uma grossa rodela de madeira preta larga e espessa acompanhando as beiras serve de assento
Isso deve ser bem desconfortável e muito baixo
É exatamente o oposto dos tinotes da Bastilha que ficam empoleirados no alto


MÁ FÉ
Mauvaise Foi

Este bendito mordomo a quem apesar de tudo dei uma gorda gorjeta pra não deixar ninguém me amolar
A convite do comandante vem me procurar com seu ar de gato bandido
Me solicita que eu ocupe um lugar de honra à mesa
Fico p. da vida mas não posso recusar
Ao jantar sinto que o comandante é um homem bem simpático
Me instalo entre o adido da embaixada em Haia e um cônsul inglês em Estocolmo
Doutro lado há um sumidade mundial em bacteriologia e sua doce esposa esganada e branquela de olhos mates e redondos
Meus paradoxos antimusicais e teorias culinárias sacodem a mesa numa indignação geral
O adido em Haia precipita seu monóculo na sopa
O cônsul em Estocolmo se desfigura em verde-congestão como um pijama listrado
O sumidade bacteriológica espicha ainda sua pontuda cabeça de furão
Sua esposa matraca e retrai de fora pra dentro tão bem que sua cara acaba por parecer um umbigo de boneco de mola
O comandante pisca maliciosamente


REVELAÇÃO
Incognito Devoilé

Já fazia dias que eu intrigava meus parceiros de mesa
Eles tentavam adivinhar o que eu era
Eu falava de bacteriologia com o sumidade mundial
De mulheres e cabarés com o comandante
Teorias kantianas da paz com o adido em Haia
Negócios de fretes com o cônsul inglês
Paris cinema música banco vitalismo aviação
Esta noite ao cumprimentá-la a mulher do sumidade mundial disse É verdade
O senhor é poeta
Com a breca!
Quem lhe contou foi a mulher do jóquei que viaja de segunda classe
Não lhe pude contrariar pois seu sorriso em forma de umbigo comilão me diverte mais que tudo no mundo
Eu queria muito saber como ela consegue franzir um rosto glutão e bochechudo


AMAS-SECAS E ESPORTES
Nourrices et Sports

Há diversas amas-secas a bordo
Secas e não tão secas assim
Quando se joga malha ao convés
Cada vez que a jovem alemã se debruça ao fundo do corpete saltam dois seiozinhos sapecas
Todos os homens da primeira classe aos matalotes conhecem este jogo e passam a bombordo pelo convés pra apreciar estas duas coisinhas redondas no ninho
Deve-se comentar isto até na despensa
Na ponta de um banco
Num cantinho isolado
Uma criança de peito se dependura e chucha a esguichar o grande seio de uma negra abundante e gomoso como uma penca de bananas


Tradução de José Machaddo Sobrinho


 

Poema de Marco Valério Marcial (Tradução de Jorge de Sena)

VI, 23 - CONTRA LÉSBIA

Que eu esteja sempre de pau feito queres,
Lésbia, mas crê que membro não é dedo.
Co'a mão, co'a voz, tu docemente insistes,
E contra ti teu rosto não perdoa.




Tradução Jorge de Sena 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Poema del brasileño Paulo Leminski en castellano



  SIGNO ASCENDENTE

  Nem todo espelho
  reflita este hieróglifo.
  Nem todo olho
  decifre esse ideograma.

  Se tudo existe
  para acabar num livro,
  se tudo enigma
  a alma de quem ama!

  *** 

  SIGNO ASCENDENTE

  Ni todo espejo
  refleje este jeroglífico.
  Ni todo ojo
  descifre este ideograma.

  ¡Si todo existe
  para acabar en libro,
  si todo enigma
  el alma de quien ama!

Tradução Adriandos Delima


pauloleminskicachorrolouco por Andrey Freitas

terça-feira, 22 de março de 2011

Três. Um poema de Gregory Corso. Tradução Adrian'dos Delima.




Three

 Extraído de "The Happy Birthday of Death,"
(c) 1960, New Directions Publishing Co.

1.

The streetsinger is sick
crouched in the doorway, holding his heart.
One less song in the noisy night.

2.

Outside the wall
the aged gardener plants his shears
A new young man
has come to snip the hedge

3.

Death weeps because Death is human
spending all day in a movie when a child dies.

***


Três

1.
O cantor de rua está mal,
recurvo ao pé da porta, aparando o peito.
Um canto a menos no rumor da noite.

2.
Apartado da muralha
o jardineiro de idade planta suas tesouras
Um novo jovem vem
espicaçar os ramos da cerca

3.
A morte chora porque a morte é gente
perdendo o dia num filme enquanto morre uma criança.                     


Tradução Adrian'dos Delima


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Arte de rua em Barcelona, autor desconhecido. Foto por Euskadi 11,  em
http://www.frontlin.es/

sexta-feira, 11 de março de 2011

Lettre de Blaise Cendrars, traduzido por Diego Grando





Desde que Diego Grando me autorizou a publicar seus poemas e traduções livremente em meu blog, considero-o um colaborador destas páginas.
 
Carta

Você me disse se você me escrever
Não bata tudo à máquina
Acrescente uma linha à mão
Uma palavra um nada oh qualquer bobagem
Sim sim sim sim sim sim sim sim

Minha Remington é boa no entanto
Gosto bastante dela e trabalho bem
Minha escrita é limpa e clara
Vê-se muito bem que eu é que a bati

Há lacunas que sou o único a saber fazer
Veja então o olho que tem a minha página
No entanto para seu agrado eu acrescento à tinta
Duas três palavras
E uma grande mancha de tinta
A fim de que você não possa lê-las


Lettre

Tu m’as dit si tu m’écris
Ne tape pas tout à la machine
Ajoute une ligne de ta main
Un mot un rien oh pas grand chose
Oui oui oui oui oui oui oui oui

Ma Remington est belle pourtant
Je l’aime beaucoup et travaille bien
Mon écriture est nette est claire
On voit très bien que c’est moi qui l’ai tapée

Il y a des blancs que je suis seul à savoir faire
Vois donc l’oeil qu’a ma page
Pourtant pour te faire plaisir j’ajoute à l’encre
Deux trois mots
Et une grosse tache d’encre
Pour que tu ne puisses pas les lire






                Blaise Cendrars, Feuilles de route, 1924.
                Tradução Diego Grando

terça-feira, 1 de março de 2011

Blaise Cendrars, Vida Perigosa

Vida perigosa


Hoje sou quem sabe o mais feliz homem do mundo
Possuo tudo o que eu não desejo
E da única coisa desejável da vida cada volta da hélice me traz próximo
E eu já posso a ter perdido chegando







  
Vie dangereuse

Aujourd'hui je suis peut-être l'homme le plus heureux du monde 
Je possède tout ce que je ne désire pas
Et la seule chose à laquelle je tienne dans la vie chaque tour de l'hélice m'en rapproche
Et j'aurai peut-être tout perdu en arrivant









35 ° 57 'de latitude norte
15 ° 16 'de longitude oeste

  
A isto hoje se chegou
Eu vi o ocorrido desde o início da travessia
O mar estava bonito com uma bruta corcova de fundo que nos fazia balançar
O céu estava encoberto desde a manhã
Isto era quatro horas da tarde
Eu estava em meio ao jogo de dominó
De um golpe eu lancei um grito e corri sobre o convés
É isso é isso
O azul de ultramar
O azul papagaio do céu
A atmosfera amena
Um não sabe como isso se passou e como definir a coisa
Mas tudo aumenta em um grau de tonalidade
Ao entardecer eu tive a prova dos nove
O céu no momento era limpo
O sol poente como uma roda
A lua cheia como outra roda
E as estrelas maiores maiores
  
Este ponto está localizado entre a Ilha da Madeira a estibordo e Casablanca a bombordo

 



35° 57' latitude Nord
15° 16' longitude ouest


C'est aujourd'hui que c'est arrivé
Je guettais l'événement depuis le début de la traversée
La mer était belle avec une grosse boule de fond qui nous faisait rouler
Le ciel était couvert depuis le matin
Il était 4 heures de l'après-midi
J'étais en train de jouer aux dominos
Tout à coup je poussai un cri et courus sur le pont
C'est ça c'est ça
Le bleu d'outremer
Le bleu perroquet du ciel
Atmosphère chaude
On ne sait pas comment cela s'est passé et comment définir la chose
Mais tout monte d'un degré de tonalité
Le soir j'en avais la preuve par quatre
Le ciel était maintenant pur
Le soleil couchant comme une roue
La pleine lune comme une autre roue
Et les étoiles plus grandes plus grandes


Ce point se trouve entre Madère à tribord et Casablanca à bâbord
Déjà

Madeira e azul-papagaio


Traduções Adrian'dos Delima